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BLOG DO MSU - uma questão de opinião e de conjuntura
Dom Pedro Casaldáliga falou, Dom Pedro Casaldáliga avisou: “ A política morreu... viva a política”. 17/06/2008 A descolonização da América Latina e os direitos indígenas 15/05/2008 João Cláudio veste a camisa do MSU e organiza o movimento em Sergipe. 23/04/2008
O bonde dos bichos no Brasil - 14/02/2008 Apesar da Intersecção, o Brasil clama por vagas públicas no ensino superior - 12/02/2008
DOM PEDRO CASALDÁLIGA FALOU, DOM PEDRO CASALDÁLIGA AVISOU: “ A POLÍTICA MORREU... VIVA A POLÍTICA”. 17/06/2008. Miguel Salustiano
Pedro Casaldáliga, homem simples, culto e de luta, que deu o nome MSU à luz, falou assim em 2008, na agenda latino-americana, que aqui compartilho com vocês para aprendermos juntos: “O grande personalista cristão Emmanuel Mounier declara: «Tudo é política, mesmo que a política não seja tudo», Fábio Konder Comparato, jurista e militante, apesar das graves decepções que tem sofrido com a política, afirma categoricamente: «Fora da política não há salvação». Gilvander Moreira faz a mesma afirmação. Vários institutos espanhóis, especialistas em juventude, constataram numa pesquisa que 60% dos jovens não sentem nenhum interesse pela política. O povo simples das nossas regiões do interior do Brasil falava e fala ainda da política, a priori e a posteriori, como de um mal: «Estar político» com alguém é estar brigado com ele. Como fica então? Política sim ou política não? Depois de termos falado de democracia em 2007, achamos mais que oportuno falarmos de política. Deve-se reconhecer que a decepção que vem provocando a política, praticamente em todos os países, cria uma atitude de desconfiança, de desprezo e até de indignação frente à política. Quais são as causas? Infelizmente é fácil enunciá-las: os escândalos de corrupção e nepotismo, a falsidade das promessas eleitorais, as alianças espúrias, a inércia interesseira das oligarquias nacionais e a submissão dos governos e políticos à macro-ditadura do capitalismo neoliberal... A experiência coletiva, em quase todos os países, sobretudo no Terceiro Mundo, é de uma dança de siglas que encobrem, todas elas, a mesma pseudo-política reinante no poder, no lucro, no privilégio. Tem-se feito da política um negócio, o recurso das elites que se sucedem, sempre as mesmas, abertamente na direita, consagrando o status quo. A charge diz: «Chega de fazer política com a política! Deixem a política para o que ela é: para fazer negócios!» Essa política deve morrer. Já é mundialmente uma política morta para a sociedade que quer viver humanamente e construir um futuro autenticamente democrático, humanizador, participativo, sem essas desigualdades que clamam ao céu. A economia cresce mas cresce simultaneamente a desigualdade. Os planos estruturais de ajuste, exigidos dos países pobres, pela política em exercício, fracassaram, cobrando-se muita dor, muita miséria e até muito sangue. «O processo atual de globalização, escreve Stiglitz em seu livro “Como fazer que funcione a globalização”, está provocando uns resultados desequilibrados tanto entre países como dentro dos mesmos. Cria-se riqueza, mas são demais os países e as pessoas que não partilham seus benefícios... Estes desequilíbrios globais são moralmente inaceitáveis e politicamente insustentáveis». Tem-se afirmado oportunamente que a desigualdade assassina à mundialização; e se convoca para um processo múltiplo em lugares e em modos a serviço de uma «mundialização eqüitativa», que reparta o bem-estar e que suprima a miséria. Temos que fazer da política um exercício básico de cidadania. A cidadania é o reconhecimento político dos direitos humanos. Porque somos humanidade, somos sociedade. O filósofo italiano Giorgio Agamben afirma: «A separação entre o humano e o político que estamos vivendo na atualidade é a fase extrema da excisão entre os direitos do homem e os direitos do cidadão». É preciso fazer um percurso pela história da política. Confrontar o exercício da política real com os direitos humanos, com a cidadania, com as culturas, com a laicidade e o diálogo inter-religioso, com a ecologia, com os meios de comunicação. Essa política real tem nas mãos a manipulação da opinião pública e «a colonização das subjetividades». Para a maior parte da humanidade é uma política que deve morrer, que já é uma política morta. E, entretanto, a política, a outra política, não pode morrer, precisamente porque a humanidade não pode viver sem ela. A política é a organização da vida humana, o processo da sociedade. A política é mais que uma dimensão, abrange todas as dimensões da vida social. Denunciamos a política iníqua, reivindicamos a verdadeira política. Uma política «outra», de justiça, de transparência, de serviço, de participação. Programada e vivida localmente e mundialmente. Renovando as instâncias tradicionais, muitas delas caducas e injustas, e propiciando instâncias novas. Formando politicamente a cidadania. Sugerindo atitudes, processos, campanhas; ajudando a buscar soluções. Sabemos que «agenda» é «o que se deve fazer». Então, é preciso ajudar a pensar e a assumir o que se deve fazer para que a política viva, ressuscitada, longe dos «sepulcros caiados», e seja uma política humana e humanizadora. Com Max Weber, queremos distinguir entre a política como profissão e a política como vocação. Rubem Alves escreveu, num memorável artigo “Sobre política e jardinagem”: «De todas as vocações, a política é a mais nobre... De todas as profissões, a profissão política é a mais vil». Vários especialistas escrevem, propiciando informação e pistas de ação, particularmente em áreas mais profanadas ou mais esquecidas: política e direitos humanos, a mulher e a política, a política e os meios de comunicação, a política e o movimento popular, a política e as culturas, a política e a religião, a política e a economia. Devemos sonhar caminhando. Queremos e devemos ser políticos, fazer política. Nos auto-convocamos para entrar, mulheres e homens –cada vez mais as mulheres nas diferentes esferas da política-, adultos e jovens, todos comprometidos e esperançados, nessa grande mobilização de objetivos, de foros, de campanhas, de realizações. Pedimos, sonhando alto, que a política seja um exercício de amor, a celebração diária de uma convivência verdadeiramente humana. Uma política fraterna e sororal. Um culto diário à Humanidade e o melhor culto ao Deus vivo. Queremos ser políticos e fazer política, sem possível neutralidade, sem hipócritas eqüidistâncias. Em seu famoso discurso na universidade de Lovaina, o mártir São Romero da América afirmou: «Ser a favor da vida ou da morte. Cada dia vejo com mais clareza que essa é a opção a seguir. Nisso não existe neutralidade possível. Ou servimos à vida ou somos cúmplices da morte de muitos seres humanos. Aqui se revela qual é a nossa fé: Ou cremos no Deus da Vida ou usamos o nome de Deus servindo aos carrascos da morte».” Que todos nós, homens e mulheres, saibamos arrancar alegria e direitos dos dias. Êta!Eia! Obrigado Pedro. Miguel Salustiano, militante popular brasileiro.
A descolonização da América Latina e os direitos indígenas - Boaventura de Sousa Santos15/05/2008 Se revisarmos a história, recordaremos que, no período colonial, os colonizadores diziam que os índios não tinham alma. Foi necessário passarem 500 anos, um processo histórico muito largo, para que um índio fosse eleito presidente democraticamente. O Equador, no momento atual, se caracteriza pelo fato de que as forças progressistas assumiram a bandeira empunhada pelo movimento indígena na década de 90 para a elaboração de uma nova Constituição, que reconheça a diversidade de uma maneira profunda através da plurinacionalidade. Os avanços nos últimos 20 anos permitiram passar da invisibilidade à visibilidade, da resistência à proposta e agora da interculturalidade à plurinacionalidade. É importante levar isso em conta para se analisar o atual processo constituinte. A Constituição é simplesmente um papel que foi fonte de frustração durante muito tempo. Vários direitos foram incluídos, porém, os povos continuam sendo excluídos, empobrecidos, invisibilizados e oprimidos. Estamos diante de um novo tipo de constitucionalismo, que implica um diferente projeto político de país, outra forma de cultura, de convivência, de territorialidade, de institucionalidade do Estado. Trata-se de uma nova época, interessante, mas muito difícil, já que existem muitos inimigos internos e externos que estão muito bem organizados. Lamentavelmente, as forças progressistas não se organizam tão bem como seus opositores. O atual modelo de Estado é homogeneizador porque implica uma só nação, cultura, direito, exército e religião. Essa idéia de homogeneidade predomina nas cabeças das elites, da cultura e até nas forças progressistas, que são ou podem ser aliadas nesse processo. Daí a importância em defender outro tipo de unidade na diversidade, que não seja simplesmente aceita, senão celebrada. A unidade não tem porque ser homogênea e tampouco a diversidade tem que significar desintegração. Esses são os desafios que deve enfrentar a nova Constituição, para que efetivamente o atual processo político implique uma importante ruptura com o colonialismo que não terminou com as independências. As diversas iniciativas políticas que estão emergindo no continente só podem ser entendidas reconhecendo a existência de um profundo racismo na sociedade. Por exemplo, não podemos entender os conflitos na Bolívia sem antes recordar que, para suas elites, um índio é só um índio, e não concebem que tenha chegado a ser presidente, pois, segundo elas, não é competente. Se revisarmos a história, recordaremos que na colônia acreditavam que os índios não tinham alma, e foi um papa, em 1537, quem teve de reconhecer que tinham. Foi necessário passarem 500 anos, um processo histórico muito largo, para que um índio fosse eleito presidente democraticamente. Na Venezuela também existe racismo, basta observar muitas das críticas lançadas contra o presidente Hugo Chávez, que o chamam de macaco e de não pertencer às elites brancas da sociedade dominante. Por isso a importância do reconhecimento da continuidade do colonialismo e de que, no processo constitucional, a plurinacionalidade é um ato de pós-colonialismo que rompe com essa herança colonial. A independência foi dada, concebida, conquistada pelos descendentes dos colonizadores, não pelos povos originários, quer dizer, não foi realmente descolonizadora. Na África, aconteceu o contrário, as independências se deram por territórios, pelos povos originários, com exceção da África do Sul, que conquistou sua independência em meados dos anos 90.
Esse novo tipo de constitucionalismo é importante, porém
não é exclusivo da América Latina. No mundo existem vários países, como Canadá,
Suíça, Bélgica e Espanha, que se reconhecem como plurinacionais. Não se entende,
portanto, por que o drama, o enfrentamento e as dúvidas. Em uma reunião do
SENPLADES (Secretaria Nacional do Planejamento e Desenvolvimento) Esse processo político significa uma nova visão de país, uma refundação do Estado equatoriano. Bolívia e Equador estão inventando outro tipo de Estado, um modelo que merece novas instituições e novos territórios com um marco político diferente, que permita passar do discurso à prática e cujas mudanças se reflitam de maneira visível. A plurinacionalidade é um ato fundacional ou de refundação do Estado e todos os outros atos fundacionais são de transição. Passar das velhas estruturas à construção de novos estados é um processo de transição que não é unicamente político, senão cultural e que pode provocar enfrentamentos, como está acontecendo no Equador e na Bolívia. São choques de memória entre aqueles que não podem esquecer e os que não querem lembrar. Esta confrontação, que não é política, mas também cultural, exige que se construa outro tipo de memória. O novo modelo de Estado implica uma nova institucionalidade, outra territorialidade, mas também outro modelo de desenvolvimento. Daí a importância das concepções indígenas, que estão ganhando terreno porque vão além das reivindicações puramente étnicas. Hoje em dia, o ponto de vista dos povos indígenas é importante no continente e não somente para eles, como também para todo o país, pois o atual modelo de desenvolvimento está destruindo os recursos naturais, o meio ambiente, contaminando a água, particularmente no Equador, como é o caso da Texaco, que durante 30 anos causou pobreza, destruição ambiental e contaminou as águas. Este é um velho modelo e é possível que as palavras do 'desenvolvimento' não sejam as mais adequadas. Então, por que não utilizar a palavra 'reviver', que tem uma conotação muito mais profunda e que significa uma relação diferente com Pacha Mama? O conceito de natureza é muito pobre comparado com o de Pacha Mama, mais profundo e rico, pois implica harmonia e cosmovisão. Os indígenas colombianos costumam dizer "o petróleo é sangue da terra, é nosso sangue, nossa vitalidade, se nos tiram o sangue, nos matam". Esta concepção, que para os povos indígenas é muito natural, começa a ter outra aceitação. Não está em jogo só uma crise do capitalismo, mas também a sobrevivência da humanidade, caso se mantenha o atual modelo de desenvolvimento Este ato refundacional tem uma enorme potencialidade para o estabelecimento de relações mais amplas e o movimento indígena tem de estar preparado para a construção de novas alianças. Trata-se também de outro modelo de democracia, porque a atual é muito excludente e marginalizou as grandes maiorias da mesa de negociações e decisões. Portanto, é necessário democratizar a democracia com novas formas de participação, mais inclusivas, podendo ser de origem ocidental, como a democracia participativa, ou de origem comunitária, como as formas indígenas. A Constituição boliviana, por exemplo, distingue entre democracia representativa e democracia partidária e comunitária. A democratização da democracia vem acompanhada de outro processo interessante que é o da 'cidadanização' da cidadania, ou seja, a ampliação da cidadania a formas de cidadania intercultural junto de diferentes formas de pertencimento. Quando me perguntam se a plurinacionalidade pode colocar em risco a unidade do país, respondo rotundamente que não, pois essa é minha larga experiência com os movimentos indígenas deste continente, que, basicamente, mostram duas coisas: os povos indígenas são originariamente transnacionais, como é o caso dos aymaras, quéchuas, mapuches, que foram divididos em vários países e agora são chilenos, argentinos, peruanos, equatorianos ou bolivianos. Em segundo lugar, eles reconhecem simultaneamente sua identidade nacional indígena e também a cidadania de seu país. Além do mais, mantiveram lealdade a seus países em guerras fronteiriças, participando com muita valentia de exércitos nacionais. Um exemplo desse duplo pertencimento podemos observar no Canadá, onde não é o mesmo ser canadense para um branco e para um indígena. Mesmo assim, todos, de maneira muito distinta, são canadenses. Existem várias maneiras de pertencimento e, portanto, formas de convivência. A unidade na diversidade é uma nova solidariedade social, que pode ter um impacto muito forte nos territórios e recursos naturais. Podem produzir-se enfrentamentos, porém nas rupturas também existe continuidade. Por isso é importante que esses conflitos sejam controlados dentro de um marco pacífico e democrático. Passar da interculturalidade à plurinacionalidade é um salto muito grande, mas também nisso se dá uma continuidade. A atual Constituição Política do Equador estabelece as circunscrições indígenas, porém estas, lamentavelmente, não foram regulamentadas. Quando insistem no risco de que a plurinacionalidade pode enfraquecer a unidade nacional, pergunto-me: aonde estão as provas, os resultados desses fenômenos? Pelo contrário, o agronegócio e grandes latifundiários de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, que defendem o separatismo, é que constituem um grave perigo para a unidade do Estado. Portanto, a desintegração não vem dos povos indígenas. O objetivo da plurinacionalidade não é somente a idéia do consenso, mas também do reconhecimento das diferenças, de outra forma de cooperação nacional com unidade na diversidade. É um ato de justiça histórica que não pode ser resolvido como um problema de geometria da democracia representativa. Qual a quantidade de indígenas neste país, 30, 20, 7 mil pessoas? Quanto menor a quantidade, mais demonstrado fica o nível de extermínio e, portanto, que a plurinacionalidade tem de ser mais profunda. Um desafio para a institucionalidade é compatibilizar a igualdade com a diferença. Difícil, mas não impossível. Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).
Mais uma força no nordeste, MSU agora tem representação em Sergipe. O estudante sergipano João Cláudio, Técnico em Patologia Clínica, abraça a causa e veste a camisa do Movimento dos Sem Universidade. "Chega de ver os formados no ensino médio perdendo as suas vagas nas universidades, temos que juntar as nossas mãos e fazer com que as propostas da Conferência Nacional da Educação Básica sejam colocadas em pratica. "Mais recursos para a educação, mais vagas nas universidades, melhor qualidade nos ensinos básico... só assim vamos ter uma nação igualitária e rica", diz o estudante. Entre em contato conosco e faça como o João Cláudio. Construa o MSU no seu Estado !
Jaqueline Alves foi para a universidade. Está fazendo o curso de medicina veterinária, graças ao sistema público de bolsas, o ProUni, uma conquista da luta do MSU. Aqui, Jaqueline compartilha com o mundo a sua caminhada, para animar a caminhada dos excluídos na luta pelo direito à universidade no Brasil.
Ela batalhou muito atrás de seu propósito, mesmo quando havia pessoas que não acreditavam nela... veja seu depoimento:
“Eu sou a Jacqueline, estou fazendo Medicina Veterinária pelo PROUNI e estou muito feliz! O MSU em Guarulhos me ajudou muito!!! Abriu meus olhos para a injustiça da educação privada, me incentivou mais do que tudo a correr atrás do meu sonho, e me apoiou com professores ótimos e super-interessados em ajudar! A verdade é que não adianta ficar parado. Tem que estudar muito, em casa, no ônibus, no banheiro...(brincadeira!) Sem planejamento individual a coisa não vai pra frente... o MSU me mostrou isso! E quem participou das atividades do Cursinho Popular do MSU no ano passado sabe que TUDO o que caiu no ENEM a gente já tinha visto no curso... e isso foi incrível! Ajudou-me muito mesmo! Abraços e não desistam....estou torcendo por todos e todas!!!! Obrigada MSU!!!!!!"
Programação de Estudos da Jaqueline: "Como tinha escola de manhã e curso de informática à tarde, estudava das 14:00 horas (a hora que eu chegava em casa) até às 18:00 horas. Ia para o curso e quando chegava estudava das 20:00 às 21:30 horas. Nada de novela... (até hoje...) porque além de tudo tinha os trabalhos escolares. Separava assim: no caminho, nos intervalos da aula e domingo à tarde, eu lia as obras (isso pode não parecer importante mas acrescentou muito, principalmente Carlos Drummond de Andrade...). De resto, era uma matéria por dia (física e química eram os principais, mas biologia e história fazia por diversão, por isso estudava mais...), só uma vez por semana que eu não estudava... afinal tem que namorar um pouquinho. Fazia exercícios e para ficar em dia e lia sobre atualidades. Sábado a tarde, fazia os exercícios da apostila solidária... é isso!”
Estande do MSU, na Conferência Nacional de Educação, em 17 de abril de 2008 RODA DE DIÁLOGO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO CONEB Veja os temas discutidos:
Pedro José Vieira Ramos 14/02/2008 Alguns felizardos entraram em carreiras cobiçadas em universidades públicas de renome neste ano. Na primeira década do novo milênio, de 75% a 95% das vagas em cursos superiores públicos como medicina, direito, jornalismo, arquitetura, engenharia é reservado para um mesmo perfil humano no Brasil. Os tipos sociais são: ricos, brancos, vindos da escola privada. As exceções confirmam a regra. O champanhe estoura em alguns endereços sociais: segundo pesquisa de 2004, feita à partir da lista dos matriculados na USP, menos de 10% do CEP (código de endereço postal) é de moradores de regiões de periferia, o que se mantêm atual. É também o momento do regozijo da indústria do vestibular, que movimenta milhões de reais no Brasil, euros, se quiser. Ela comemora seus lucros e mira seus fuzis de última geração em propagandas vorazes que cospem na cara dos mortais brasileiros, arrotando verdades: “vejam a nossa cota de aprovados, é só pagar que você também fará parte da nossa cota”. É uma tragédia e uma humilhação social sem par no mundo: do dinheiro público, uma minoria usufrui com farra! Como os tipos não são vistos em ambientes sociais populares, nesta época do ano, é comum encontrar seus rastros em semáfaros e faróis. Não são chamados de aspiras, como no filme brasileiro “Tropa de elite”, são os “bichos”. Não são chamados de recos, como no serviço militar obrigatório: são os “bichos”, simplesmente. E os bichos ocupam as ruas... para curtir com a cara da população. Pedem dinheiro para cachaças, cervejas, lança-perfumes e outros lances. Como num ritual militar, os privilegiados mais velhos domesticam os neófitos. Raspam o cabelo, pintam e bordam, pedem dinheiro e vão em bando encher a cara no final. No país dos doutores e dos banguelas, os bichos vão virar doutores. Vão mandar no Brasil. Com este ritual de ostentação social, eles simbolizam em carne e osso, a raiz, o tronco e os galhos históricos, da manutenção e reprodução no tempo, de uma sociedade com uma das piores distribuições de renda do planeta Terra, a injusta e violenta sociedade brasileira. Seu individualismo é tacanho. Seu compromisso social com a boa herança científica brasileira é duvidoso, bem diferente de Milton Santos, Celso Furtado, Josué de Castro, Florestan Fernandes, Newton da Costa, Carlos Chagas, Miguel Nicolelis, Paulo Freire e outros. Seu compromisso social com a transformação e a felicidade do Brasil é próxima de zero. Não vão à universidade dispostos a ajudar a acabar com a fome no Brasil, a ajudar a resolver a falta de saneamento básico, a cura para a doença de Chagas, a falta de moradia, de qualidade na educação pública brasileira, não estão interessados no drama da falta de coesão social brasileira. A crítica social dos bichos é dissimulada, para inglês ver. É uma caricatura útil que pode até aparecer numa redação, para atender ao apetite viciado do examinador no podre sistema de vestibular brasileiro. No mais, não vai além dos burburinhos das rodinhas dos botequins acadêmicos e suas massas acovardadas de privilégios. A maioria dos bichos está preocupada com o próprio umbigo ou rabo. Querem é mais enricar. A universidade é status, poder de compra e de mando. Os bichos são os donos das bocas disputadas das universidades públicas do país. A moral militarista e conservadora da balada dos bichos, do bonde dos bichos - melhor, já que eles são apenas a ponta visível da indústria dos vestibulares no Brasil, expõe a sofisticada violência social das elites brasileiras. Do ritual dos bichos já nasceu a morte de um jovem de origem chinesa na medicina da principal universidade pública do Estado mais rico do Brasil. Ele iria estudar no primeiro ano de medicina. Foi afogado numa piscina. O diferente é segregado. Agora, em 2008, no dia 12 de fevereiro, por volta das 22:30h, em Ribeirão Preto, área rica da indústria da cana-de-açúcar, outro rico que entrou em universidade, um bicho embalado, jogou seu carrão Vectra em cima de um frentista num posto de gasolina. Assim ele comemorava sua entrada na universidade, no curso de direito. O mais grave vírus que se multiplica com a balada dos bichos, com o bonde dos bichos é, no entanto, um virús subjetivo: o ódio social não dito dos ricos para com os pobres no Brasil, o racismo, o desprezo pela escola pública, a intolerância. É a arrogância e a prepotência social impregnada em quem entra no forno para ser a elite que manda. Virá um dia a comemoração do Brasil real com ele mesmo, uma comemoração socialmente justa. Os sem-universidade que furaram a estatística em 2008 estão convidados para transformar a exceção em regra, neste grande levante por direitos sociais no Brasil, no qual a ação e os resultados do MSU são exemplos dignos. Pedro José Vieira Ramos - Especialista em Educação Superior no Brasil.
Apesar da Intersecção, o Brasil clama por vagas públicas no ensino superior. Pedro José Vieira Ramos 12/02/2008
Começa o 2008 escolar. De novo muita gente fora da universidade. No Brasil, uma grande novidade: a educação especulativa. Como no joguinho chamado war, lançam-se os dados e conquistam-se territórios. Os olhos – aqueles que se diz que a “terra há de comer” – se dão conta da situação: cada ponto do mapa tá dominado, principalmente nas grandes manchas urbanas nacionais. Uma olhadela na lista de universidades particulares versus as vagas em universidades públicas na Grande São Paulo, que concentra mais de vinte milhões de pessoas não deixa dúvida: se o somatório das vagas públicas fica na “rapa do tacho” com uma oferta de cerca de vinte mil vagas, as vagas privadas, agora da educação especulativa, com direito a ações no mercado aberto global das bolsas de valores, ficam na casa do milhão. Há outras manchas urbanas: Grande BH, Grande Recife, Grande Rio, Grande Porto Alegre, Grande Belém, DF etc e etc. Haja sem-universidade e computadores para modelar os lucros projetados e inventar produtos educacionais “inovadores”. Não se trata de cidadãos, mas de mera contabilidade financeira. Esta moda brasileira de montar universidades privadas e cursos, igual se tem farmácia e drogarias em cada esquina, começou na ditadura e não para. De fato, foram dois movimentos de guerra violentos que fixaram destinos: o primeiro veio da ditadura militar dos anos 1960 e o segundo veio da tempestade neoliberal dos anos 1990. Pagar pela universidade é normal, como ir ao banheiro fazer as necessidades. Universidade pública e gratuita não é normal, parece coisa exótica. A propaganda toda na cabeça das massas é da universidade privada. A universidade pública nacional é uma ilustre desconhecida das massas: feita para os nacionais com pedigrees, não se ocupa dos homens e mulheres comuns do povo. Mas, como naquela aulinha antiga de matemática, se há o conjunto A das universidades privadas e o conjunto B das universidades públicas, qual é o conjunto intersecção? É simples, o conjunto intersecção (A “inter” B) é formado por elementos discretos (inteiros) e contínuos (infinitos): o político eleito com o dinheiro da universidade privada (vereador, deputado estadual, deputado federal, senador); o professor que dá aula na universidade pública e privada; o dirigente da universidade pública que montou a universidade privada; o dono de cursinho dos anos 1960 que deu crias que viraram escolinha, universidade e marca de luxo da educação especulativa; o cargo público que é ocupado pelo representante do interesse privado; o órgão de comunicação que recebe dinheiramas para fixar nas massas a marca do grupo de educação privado; as fundações privadas em universidades públicas, que fazem novos ricos na academia brasileira e seus conseqüentes desvios do interesse público para o bem-estar e status pessoal; o pesquisador da universidade pública que opera para os negócios privados; o restaurante de luxo onde muitos destes elementos se encontram de noite escura para tratar de negócios educacionais, votações em câmaras municipais, assembléias legislativas, câmara e senado e agrados financeiros para imprensas sedentas de recursos financeiros, muitas vezes, entre bons vinhos e “otras cositas mas”. Por tudo isto, duas situações chamam a atenção neste 2008 que começa. A primeira é que a Câmara dos Deputados não vota o Projeto de Lei 73/1999 que garante a reserva de, no mínimo, 50% das vagas nas universidades públicas e no ensino tecnológico para oriundos da escola pública, por turno e por curso. Liderados pelo PFL (agora DEM, de dem...) e pelo PSDB – o veto de 2006 que parou a aprovação do projeto na câmara é assinado pelo então líder do PFL Rodrigo Maia, que no carnaval de 2008 no Rio de Janeiro, foi flagrado beijando a mão de bicheiros famosos e pelo então líder do PSDB Alberto Goldman, que agora é vice-governador de São Paulo e que foi pego recentemente, em Nova York, assistindo a uma peça de teatro com o cartão do Governo do Estado de São Paulo, numa situação de “passeio”. Por que será que não vota e aprova o PL 73/1999? Por que a Câmara dos Deputados não investe na escola pública? Será que aí tem o dedo do grupo da intersecção? A segunda situação que chama a atenção é a tentativa de melar a ampliação de vagas em universidades públicas, cerca de 100 mil novas vagas, já para 2008/2009, com grande quantidade de vagas noturnas e muitas delas sob regime de reserva de vagas para a escola pública, conquista da pugna social do MSU, por parte de pseudo-radicais e pelo grupo da intersecção. Se a luta do MSU conquistou 400 mil vagas no Sistema Público de Bolsas de Estudo, o Prouni, ainda é preciso acabar com a DRU (Desvinculação das Receitas da União) que tira verbas da educação. Não querem que se expanda o espaço das vagas públicas para não atrapalhar os negócios privados? Ora, 100 mil vagas públicas é muuuuuiiiiiito pouco ainda, para um Brasil que tem no seu Plano Nacional de Educação uma meta de oferta de 40% das vagas públicas no ensino superior para 2011 e ainda se encontra no patamar inferior a 10% neste ano. Pedro José Vieira Ramos - Especialista em Educação Superior no Brasil. |