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BLOG DO MSU - uma questão de opinião e de conjuntura

Leonardo Boff. Os limites do capital são os limites da Terra. 16/01/2009

Elio Gaspari. Não eram sapatos gastos, eram história. 21/01/2009

Eduardo Galeano. Quem deu a Israel o direito de negar todos os direitos? 19/01/2009

José Saramago. Donde? 20/01/2009

Nilza Mateus de Castro. Vossas nossas batalhas.22/01/2009.

Dom Pedro Casaldáliga falou, Dom Pedro Casaldáliga avisou: “ A política morreu... viva a política”. 17/06/2008

A descolonização da América Latina e os direitos indígenas 15/05/2008

João Cláudio veste a camisa do MSU e organiza o movimento em Sergipe. 23/04/2008

Jaqueline Alves foi para a universidade. Está fazendo o curso de medicina veterinária ... - 18/04/2008

Roda de diálogo dos Movimentos Sociais na CONEB (Conferência Nacional de Educação) - 17/04/2008 - Brasília - DF

 

 

 

O bonde dos bichos no Brasil - 14/02/2008

Apesar da Intersecção, o Brasil clama por vagas públicas no ensino superior - 12/02/2008

Os limites do capital são os limites da Terra

Por Leonardo Boff*

Uma semana após o estouro da bolha econômico-financeira, no dia 23 de setembro, ocorreu o assim chamado Earth Overshoot Day , quer dizer, "o dia da ultrapassagem da Terra". Grandes institutos que acompanham sistematicamente o estado da Terra anunciaram: a partir deste dia o consumo da humanidade ultrapassou em 40% a capacidade de suporte e regeneração do sistema-Terra. Traduzindo: a humanidade está consumindo um planeta inteiro e mais 40% dele que não existe. O resultado é a manifestação insofismável da insustentabilidade global da Terra e do sistema de produção e consumo imperante. Entramos no vermelho e assim não poderemos continuar porque não temos mais fundos para cobrir nossas dívidas ecológicas.

Esta notícia, alarmante e ameaçadora, ganhou apenas algumas linhas na parte internacional dos jornais, ao contrário da outra que até hoje ocupa as manchetes dos meios de comunicação e os principais noticiários de televisão. Lógico, nem poderia ser diferente. O que estrutura as sociedades mundiais, como há muitos anos o analisou Polaniy em seu famoso livro A Grande Transformação, não é nem a política nem a ética e muito menos a ecologia, mas unicamente a economia. Tudo virou mercadoria, inclusive a própria Terra. E a economia submeteu a si a política e mandou para o limbo a ética.

Até hoje somos castigados dia a dia a ler mais e mais relatórios e análises da crise econômico-financeira como se somente ela constituisse a realidade realmente existente. Tudo o mais é secundarizado ou silenciado.

A discussão dominante se restringe a esta questão: que correções importa fazer para salvar o capitalismo e regular os mercados? Assim poderíamos continuar as usual a fazer nossos negócios dentro da lógica própria do capital que é: quanto posso ganhar com o menor investimento possível, no lapso de tempo mais curto e com mais chances de aumentar o meu poder de competição e de acumulação? Tudo isso tem um preço: a delapidação da natureza e o esquecimento da solidariedade generacional para com os que virão depois de nós. Eles precisam também satisfazer suas necessidades e habitar um planeta minimamente saudável. Mas esta não é a preocupação nem o discurso dos principais atores econômicos mundiais mesmo da maioria dos Estados, como o brasileiro que, nesta questão, é administrado por analfabetos ecológicos.

Poucos são os que colocam a questão axial: afinal se trata de salvar o sistema ou resolver os problemas da humanidade? Esta é constituída em grande parte por sobreviventes de uma tribulação que não conhece pausa nem fim, provocada exatamente por um sistema econômico e por políticas que beneficiam apenas 20% da humanidade, deixando os demais 80% a comer migalhas ou entregues à sua própria sorte. Curiosamente, as vítimas que são a maioria sequer estão presentes ou representadas nos foros em que se discute o caos econômico atual. E pour cause, para o mercado são tidos como zeros econômicos, pois o que produzem e o que consomem é irrelevante para contabilidade geral do sistema.

A crise atual constitui uma oportunidade única de a humanidade parar, pensar, ver onde se cometeram erros, como evitá-los e que rumos novos devemos conjuntamente construir para sair da crise, preservar a natureza e projetar um horizonte de esperança, promissor para toda a comunidade de vida, incluídas as pessoas humanas. Trata-se sem mais nem menos de articular um novo padrão de produção e de consumo com uma repartição mais equânime dos benefícios naturais e tecnológicos, respeitando a capacidade de suporte de cada ecosistema, do conjunto do sistema-Terra e vivendo em harmonia com a natureza.

Milkahil Gorbachev, presidente da Cruz Verde Internacional e um dos principais animadores da Carta da Terra, grupo o qual pertenço, advertiu recentemente: Precisamos de um novo paradigma de civilização porque o atual chegou ao seu fim e exauriu suas possibilidades. Temos que chegar a um consenso sobre novos valores. Em 30 ou 40 anos a Terra poderá existir sem nós.

A busca de um novo paradigma civilizatório é condição de nossa sobrevivência como espécie. Assim como está não podemos continuar. Na última página de seu livro A era dos extremos diz enfaticamente Eric Hobsbawm: Nosso mundo corre o risco de explosão e de implosão. Tem de mudar. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para a mudança da sociedade é a escuridão.

Importa entender que estamos enredados em quatro grandes crises: duas conjunturais – a econômica e a alimentar – e duas estruturais – a energética e a climática. Todas elas estão interligadas e a solução deve ser includente. Não dá para se ater apenas à questão econômica, como é predominante nos dabates atuais. Deve-se começar pelas crises estruturais pois que se não forem bem encaminhadas, tornarão insustentáveis todas as demais.

As crises estruturais, portanto, são as que mais atenção merecem. A crise energética revela que a matriz baseada na energia fóssil que movimenta 80% da máquina produtiva mundial tem dias contados. Ou inventamos energias alternativas ou entraremos em poucos anos num incomensurável colapso.

A crise climática possui traços de tragédia. Não estamos indo ao encontro dela. Já estamos dentro dela. A Terra já começou a se aquecer. A roda começou a girar e não há mais como pará-la, apenas diminuir sua velocidade ao minimizar seus efeitos catastróficos e ao adaptar-se a ela. Bilhões e bilhões de dólares devem ser investidos anualmente para estabilizar o clima entorno de 2 a 3 graus Celsius já que seu aquecimento poderá ficar entre 1,6 a 6 graus, o que poderia configurar uma devastação gigantesca da biodiversidade e o holocausto de milhões de seres humanos.

De todas as formas, mesmo mitigado, este aquecimento vai produzir transtornos significativos no equilíbrio climático da Terra e provocar nos próximos anos cerca de 150-200 milhões de refugiados climáticos segundo dados fornecidos pelo atual Presidente da Assembléia Geral da ONU, Miguel d'Escoto, em seu discurso inaugural em meados de outubro de 2008. E estes dificilmente aceitarão o veredito de morte sobre suas vidas. Romperão fronteiras nacionais, desestabilizando politicamente muitas nações.

Estas duas crises estruturais vão inviabilizar o projeto do capital. Ele partia do falso pressuposto de que a Terra é uma espécie de baú do qual podemos tirar recursos indefinidamente. Hoje ficou claro que a Terra é um planeta pequeno, velho e limitado que não suporta um projeto de exploração ilimitada.

Em 1961 precisávamos de metade da Terra para atender as demandas humanas. Em 1981 empatávamos: precisávamos de um Terra inteira. Em 1995 já ultrapassamos em 10% de sua capacidade de regeneração, mas era ainda suportável. Em 2008 passamos de 40% e a Terra está dando sinais inequívocos de que já não agüenta mais. Se mantivermos o crescimento do PIB mundial entre 2-3% ao ano, em 2050 vamos precisar de duas Terras, o que é impossível. Mas não chegaremos lá. Resta ainda lembrar que entre 1900 quando a humanidade tinha 1,6 bilhões de habitantes e 2008 com 6,7 bilhões, o consumo aumentou 16 vezes. Se os países ricos quisessem generalizar para toda a humanidade o seu bem-estar - cálculos já foram feitos - iríamos precisar de duas Terras iguais a nossa.

A crise de 1929 dava por descontada a sustentabilidade da Terra. A nossa não pode mais contar com este fato e com a abundancia dos recursos naturais. Nenhuma solução meramente econômica da crise pode suprir este déficit da Terra. Não considerar este dado torna a análise manca naquilo que é a determinação fundamental e a nova centralidade.

Tudo isso nos convence de que a crise do capital não é crise cíclica. É crise terminal. Em 300 anos de hegemonia praticamente mundial, esse modo de produção com sua expressão política, o liberalismo, destruiu com sua voracidade desenfreada, as bases que o sustentam: a força de trabalho, substituindo-a pela máquina e a natureza devastando-a a ponto de ela não conseguir, sozinha, se auto-regenerar. Por mais estragemas que seus ideólogos vindos da tradição marxiana, keneysiana ou outras tentem inventar saídas para este corpo moribundo, elas não serão capazes de reanimá-lo. Suas dores não são de parto de um novo ser mas dores de um moribundo. Ele não morrerá nem hoje nem amanhã. Possui capacidade de prolongar sua agonia mas esgotou sua virtualidade de nos oferecer um futuro discernível. Quem o está matando não somos nós, já que não nos cabe matá-lo mas superá-lo, na boa tradição marxiana bem lembrada por Chico Oliveria em sua lúcida entrevista, mas a própria natureza e a Terra.

Repetimos: os limites do capitalismo são os limites da Terra. Já encostamos nestes limites tanto da Terra quanto do capitalismo. A continuar seremos destruídos por Gaia pois ela, no processo evolucionário, sempre elimina aquelas espécies que de forma persistente e continuada ameaçam a todas as demais. Nós, homo sapiens e demens, nos fizemos, na dura expressão do grande biólogo E. Wilson, o Satã da Terra, quando nossa vocação era o de sermos seu cuidador, guardião e anjo bom.

Para onde iremos? Nem o Papa nem o Dalai Lama, nem Barack Obama nem muito menos os economistas nos poderão apontar uma solução. Mas pelo menos podemos indicar uma direção. Se esta estiver certa, o caminho poderá fazer curvas, subir e descer e até conhecer atalhos, esta direção nos levará a uma terra na qual os seres humanos podem ainda viver humanamente e tratar com cuidado, com compaixão e com amor a Terra, Pacha Mama, Nana e nossa Grande Mãe.

Esta direção, como tantos outros já o assinalaram, se assenta nestes cinco eixos: (1) um uso sustentável, responsável e solidário dos limitados recursos e serviços da natureza; (2) o valor de uso dos bens deve ter prioridade sobre seu valor de troca; (3) um controle democrático deve ser construído nas relações sociais, especialmente sobre os mercados e os capitais especulativos; (4) o ethos mínimo mundial deve nascer do intercâmbio multicultural, dando ênfase à ética do cuidado, da compaixão, da cooperação e da responsabilidade universal; (5) a espiritualidade, como expressão da singularidade humana e não como monopólio das religiões, deve ser incentivada como uma espécie de aura benfazeja que acompanha a trajetória humana, pois ancora o ser humano e a história numa dimensão para além do espaço e do tempo, conferindo sentido à nossa curta passagem por este pequeno planeta.

Devemos crer, como nos ensinam os cosmólogos contemporâneos, nas virtualidades escondidas naquela Energia de fundo da qual tudo provém, que sustenta o universo, que atua por detrás de cada ser e que subjaz a todos os eventos históricos e que permite emergências surpreendentes. É do caos que nasce a nova ordem. Devemos fazer de tudo para que o atual caos não seja destrutivo mas criativo. Então sobrevivemos com o mesmo destino da Terra, a única casa comum que temos para morar.

*Leonardo Boff é teólogo, escritor, professor emérito de ética da UERJ e membro da Comissão da Carta da Terra.

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Donde?

Por José Saramago

Donde saiu este homem? Não peço que me digam onde nasceu, quem foram os seus pais, que estudos fez, que projecto de vida desenhou para si e para a sua família. Tudo isso mais ou menos o sabemos, tenho aí a sua autobiografia, livro sério e sincero, além de inteligentemente escrito. Quando pergunto donde saiu Barack Obama estou a manifestar a minha perplexidade por este tempo que vivemos, cínico, desesperançado, sombrio, terrível em mil dos seus aspectos, ter gerado uma pessoa (é um homem, podia ser uma mulher) que levanta a voz para falar de valores, de responsabilidade pessoal e colectiva, de respeito pelo trabalho, também pela memória daqueles que nos antecederam na vida. Estes conceitos que alguma vez foram o cimento da melhor convivência humana sofreram por muito tempo o desprezo dos poderosos, esses mesmos que, a partir de hoje (tenham-no por certo), vão vestir à pressa o novo figurino e clamar em todos os tons: “Eu também, eu também.” Barack Obama, no seu discurso, deu-nos razões (as razões) para que não nos deixemos enganar. O mundo pode ser melhor do que isto a que parecemos ter sido condenados. No fundo, o que Obama nos veio dizer é que outro mundo é possível. Muitos de nós já o vinhamos dizendo há muito. Talvez a ocasião seja boa para que tentemos pôr-nos de acordo sobre o modo e a maneira. Para começar.

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Quem deu a Israel o direito de negar todos os direitos?

 

Eduardo Galeano

 

Para justificar-se, o terrorismo de estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe pretextos. Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que segundo seus autores quer acabar com os terroristas, acabará por multiplicá-los.

 

Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem respirar sem permissão. Perderam sua pátria, suas terras, sua água, sua liberdade, seu tudo. Nem sequer têm direito a eleger seus governantes. Quando votam em quem não devem votar são castigados. Gaza está sendo castigada. Converteu-se em uma armadilha sem saída, desde que o Hamas ganhou limpamente as eleições em 2006. Algo parecido havia ocorrido em 1932, quando o Partido Comunista triunfou nas eleições de El Salvador. Banhados em sangue, os salvadorenhos expiaram sua má conduta e, desde então, viveram submetidos a ditaduras militares. A democracia é um luxo que nem todos merecem.

 

São filhos da impotência os foguetes caseiros que os militantes do Hamas, encurralados em Gaza, disparam com desajeitada pontaria sobre as terras que foram palestinas e que a ocupação israelense usurpou. E o desespero, à margem da loucura suicida, é a mãe das bravatas que negam o direito à existência de Israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está negando, há muitos anos, o direito à existência da Palestina.

 

Já resta pouca Palestina. Passo a passo, Israel está apagando-a do mapa. Os colonos invadem, e atrás deles os soldados vão corrigindo a fronteira. As balas sacralizam a pilhagem, em legítima defesa.

Não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva. Hitler invadiu a Polônia para evitar que a Polônia invadisse a Alemanha. Bush invadiu o Iraque para evitar que o Iraque invadisse o mundo. Em cada uma de suas guerras defensivas, Israel devorou outro pedaço da Palestina, e os almoços seguem. O apetite devorador se justifica pelos títulos de propriedade que a Bíblia outorgou, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu, e pelo pânico que geram os palestinos à espreita.

 

Israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções das Nações Unidas, que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, que burla as leis internacionais, e é também o único país que legalizou a tortura de prisioneiros.

 

Quem lhe deu o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com que Israel está executando a matança de Gaza? O governo espanhol não conseguiu bombardear impunemente ao País Basco para acabar com o ETA, nem o governo britânico pôde arrasar a Irlanda para liquidar o IRA. Por acaso a tragédia do Holocausto implica uma apólice de eterna impunidade? Ou essa luz verde provém da potência manda chuva que tem em Israel o mais incondicional de seus vassalos?

 

O exército israelense, o mais moderno e sofisticado mundo, sabe a quem mata. Não mata por engano. Mata por horror. As vítimas civis são chamadas de “danos colaterais”, segundo o dicionário de outras guerras imperiais. Em Gaza, de cada dez “danos colaterais”, três são crianças. E somam aos milhares os mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está ensaiando com êxito nesta operação de limpeza étnica.

 

E como sempre, sempre o mesmo: em Gaza, cem a um. Para cada cem palestinos mortos, um israelense. Gente perigosa, adverte outro bombardeio, a cargo dos meios massivos de manipulação, que nos convidam a crer que uma vida israelense vale tanto quanto cem vidas palestinas. E esses meios também nos convidam a acreditar que são humanitárias as duzentas bombas atômicas de Israel, e que uma potência nuclear chamada Irã foi a que aniquilou Hiroshima e Nagasaki.

 

A chamada “comunidade internacional”, existe? É algo mais que um clube de mercadores, banqueiros e guerreiros? É algo mais que o nome artístico que os Estados Unidos adotam quando fazem teatro?

Diante da tragédia de Gaza, a hipocrisia mundial se ilumina uma vez mais. Como sempre, a indiferença, os discursos vazios, as declarações ocas, as declamações altissonantes, as posturas ambíguas, rendem tributo à sagrada impunidade.

 

Diante da tragédia de Gaza, os países árabes lavam as mãos. Como sempre. E como sempre, os países europeus esfregam as mãos. A velha Europa, tão capaz de beleza e de perversidade, derrama alguma que outra lágrima, enquanto secretamente celebra esta jogada de mestre. Porque a caçada de judeus foi sempre um costume europeu, mas há meio século essa dívida histórica está sendo cobrada dos palestinas, que também são semitas e que nunca foram, nem são, antisemitas. Eles estão pagando, com sangue constante e sonoro, uma conta alheia.

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Não eram sapatos gastos, eram história

Elio Gaspari

Naquela esplanada onde já houve um mercado de escravos, o movimento de quem chegava para a festa da posse de Brack Obama começou quando ainda era noite e a temperatura estava a sete graus negativos, suficiente para congelar a água das garrafinhas. Nada havia para fazer senão esperar várias horas. Mas aquela gente esperou séculos. Desta vez, no chão, a festa era deles, extensiva a quem fosse capaz de gritar Obama com um sorriso no rosto. Para Rodrick Moore, funcionário da Universidade da Carolina do Sul, foram oito horas de volante. Para Eivind Petersen, diplomata norueguês, enrolado num cobertor azul, foram oito horas de vôo. Fernando Souza, de Salvador, enrolado na bandeira brasileira, esperava o fim da cerimônia para voar de volta. Tanya Moore, estudante de ciências do laboratório em Ohio, tinha outra conta. Às oito da manhã, quando o sol já aparecera, ela informou: “Faltam quatro horas para George Bush ir embora”. Repetiria o lance, com absoluta felicidade: “Faltam 45 minutos”. Não havia lugar melhor para a contagem regressiva de Bush.

Empossado na Presidência, Barack Obama fechou gloriosamente um ciclo da história americana que começou bem antes do nascimento do companheiro, quando uma vendedora chamada Rosa Parks entrou num ônibus, sentou no assento destinado aos brancos e não quis se levantar. Não há apenas um negro na Casa Branca, até porque o pastor Thomas Robb, diretor da Ku Klux Klan, já informou que ele “é só metade preto”.

Os negros americanos liquidaram a fatura. O presidente é negro. O procurador-geral também, bem como a embaixadora das Nações Unidas. O trisavô de Michelle Obama foi escravo numa plantação de arroz. Os negros da geração que marchou (ou não) nos anos 60 tornaram-se parte da elite americana. Susan Rice, a embaixadora da ONU, é sobrinha neta de Vernon Jordan, que em 1961 era um jovem advogado e escoltou a primeira estudante negra admitida por ordem judicial na Universidade da Geórgia.

A meia hora de caminhada da escadaria onde Obama tomou posse está guardado um par de mocassins com os saltos tipo Anabela quase completamente comidos. Durante dez anos, aqueles sapatos ficaram em algum canto da casa de uma professorinha negra de 25 anos, mulher de um militante que tomara 125 cadeias por conta das encrencas de Martin Luther King. Era a um só tempo coisa velha e memorável. Um dia veio-lhe a ideia de oferecer os mocassins ao Museu de Historia Americana. E lá estão eles, com a informação: estes foram os sapatos que Juanita Williams usou na Marcha de Selma.

Em março de 1965, Barack Obama ainda não completara 4 anos, viviam em Selma (Alabama) 15.000 negros, mas só 156 deles podiam votar. Uma primeira marcha andou seis quarteirões e acabou a cacetadas. Não adiantou. Duas semanas depois os negros marcharam por oitenta quilômetros, durante cinco dias e quatro noites. Eram 300 na partida e foram 25.000 na chegada, na capital do Estado.

Os sapatos de Juanita eram um pedaço da história dos Estados Unidos e ela percebeu. Depois de Selma o presidente Lyndon Johnson pôs fim às chicanas eleitorais contra os negros e desafiou uma audiência usando o título de uma canção de protesto: “We Shall Overcome” (“Nós triunfaremos”).

Estranho. Nas festas da posse de Obama evitava-se essa canção. Não precisava, parecia provocação. Afinal: triunfamos.

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VOSSAS NOSSAS BATALHAS

Nilza Mateus de Castro

 

Venho lhe informar que hoje recebi uma resposta do
Prouni que lhe transcrevo abaixo; porém, ainda assim acho que
isso deveria mudar, não só por mim, mas por todos que passam
pelo mesmo.

É muito decepcionante. Tenho quase 35 anos, sou casada, tenho uma filha de 11 meses e estou grávida de quase 08 meses, mas, nem por isso deixei de sonhar. Muito pelo contrário, hoje me sinto bem mais forte para lutar pelo que
desejo e necessito. Sempre que posso faço o Enem, almejo um futuro
melhor para mim e para os meus queridos. Confesso que não consigo
muita excelência em minhas médias até mesmo pela base fraca de escola
pública que vim.

Por isso, torço para que o MSU venha a conquistar cada vez mais por esse
povo tão carente de um olhar. Boa sorte para vocês, guerreiros. Que Deus os abençoe e continue lhes dando força e graça em vossas ( nossas ) batalhas.


Obrigada. 
Um grande abraço,

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DOM PEDRO CASALDÁLIGA FALOU, DOM PEDRO CASALDÁLIGA AVISOU:  “ A POLÍTICA MORREU... VIVA A POLÍTICA”. 17/06/2008. Miguel Salustiano

 Pedro Casaldáliga, homem simples, culto e de luta, que deu o nome MSU à luz, falou assim em 2008, na agenda latino-americana, que aqui compartilho com vocês para aprendermos juntos:

“O grande personalista cristão Emmanuel Mounier declara: «Tudo é política, mesmo que a política não seja tudo», Fábio Konder Comparato, jurista e militante, apesar das graves decepções que tem sofrido com a política, afirma categoricamente: «Fora da política não há salvação». Gilvander Moreira faz a mesma afirmação. Vários institutos espanhóis, especialistas em juventude, constataram numa pesquisa que 60% dos jovens não sentem nenhum interesse pela política. O povo simples das nossas regiões do interior do Brasil falava e fala ainda da política, a priori e a posteriori, como de um mal: «Estar político» com alguém é estar brigado com ele.

Como fica então? Política sim ou política não?

Depois de termos falado de democracia em 2007, achamos mais que oportuno falarmos de política.

Deve-se reconhecer que a decepção que vem provocando a política, praticamente em todos os países, cria uma atitude de desconfiança, de desprezo e até de indignação frente à política. Quais são as causas? Infelizmente é fácil enunciá-las: os escândalos de corrupção e nepotismo, a falsidade das promessas eleitorais, as alianças espúrias, a inércia interesseira das oligarquias nacionais e a submissão dos governos e políticos à macro-ditadura do capitalismo neoliberal...

A experiência coletiva, em quase todos os países, sobretudo no Terceiro Mundo, é de uma dança de siglas que encobrem, todas elas, a mesma pseudo-política reinante no poder, no lucro, no privilégio. Tem-se feito da política um negócio, o recurso das elites que se sucedem, sempre as mesmas, abertamente na direita, consagrando o status quo. A charge diz: «Chega de fazer política com a política! Deixem a política para o que ela é: para fazer negócios!»

Essa política deve morrer. Já é mundialmente uma política morta para a sociedade que quer viver humanamente e construir um futuro autenticamente democrático, humanizador, participativo, sem essas desigualdades que clamam ao céu. A economia cresce mas cresce simultaneamente a desigualdade. Os planos estruturais de ajuste, exigidos dos países pobres, pela política em exercício, fracassaram, cobrando-se muita dor, muita miséria e até muito sangue. «O processo atual de globalização, escreve Stiglitz em seu livro “Como fazer que funcione a globalização”, está provocando uns resultados desequilibrados tanto entre países como dentro dos mesmos. Cria-se riqueza, mas são demais os países e as pessoas que não partilham seus benefícios... Estes desequilíbrios globais são moralmente inaceitáveis e politicamente insustentáveis». Tem-se afirmado oportunamente que a desigualdade assassina à mundialização; e se convoca para um processo múltiplo em lugares e em modos a serviço de uma «mundialização eqüitativa», que reparta o bem-estar e que suprima a miséria.

Temos que fazer da política um exercício básico de cidadania. A cidadania é o reconhecimento político dos direitos humanos. Porque somos humanidade, somos sociedade. O filósofo italiano Giorgio Agamben afirma: «A separação entre o humano e o político que estamos vivendo na atualidade é a fase extrema da excisão entre os direitos do homem e os direitos do cidadão».

É preciso fazer um percurso pela história da política. Confrontar o exercício da política real com os direitos humanos, com a cidadania, com as culturas, com a laicidade e o diálogo inter-religioso, com a ecologia, com os meios de comunicação. Essa política real tem nas mãos a manipulação da opinião pública e «a colonização das subjetividades». Para a maior parte da humanidade é uma política que deve morrer, que já é uma política morta. E, entretanto, a política, a outra política, não pode morrer, precisamente porque a humanidade não pode viver sem ela. A política é a organização da vida humana, o processo da sociedade. A política é mais que uma dimensão, abrange todas as dimensões da vida social.

Denunciamos a política iníqua, reivindicamos a verdadeira política. Uma política «outra», de justiça, de transparência, de serviço, de participação. Programada e vivida localmente e mundialmente. Renovando as instâncias tradicionais, muitas delas caducas e injustas, e propiciando instâncias novas. Formando politicamente a cidadania. Sugerindo atitudes, processos, campanhas; ajudando a buscar soluções. Sabemos que «agenda» é «o que se deve fazer». Então, é preciso ajudar a pensar e a assumir o que se deve fazer para que a política viva, ressuscitada, longe dos «sepulcros caiados», e seja uma política humana e humanizadora.

Com Max Weber, queremos distinguir entre a política como profissão e a política como vocação. Rubem Alves escreveu, num memorável artigo “Sobre política e jardinagem”: «De todas as vocações, a política é a mais nobre... De todas as profissões, a profissão política é a mais vil».

Vários especialistas escrevem, propiciando informação e pistas de ação, particularmente em áreas mais profanadas ou mais esquecidas: política e direitos humanos, a mulher e a política, a política e os meios de comunicação, a política e o movimento popular, a política e as culturas, a política e a religião, a política e a economia.

Devemos sonhar caminhando. Queremos e devemos ser políticos, fazer política. Nos auto-convocamos para entrar, mulheres e homens –cada vez mais as mulheres nas diferentes esferas da política-, adultos e jovens, todos comprometidos e esperançados, nessa grande mobilização de objetivos, de foros, de campanhas, de realizações. Pedimos, sonhando alto, que a política seja um exercício de amor, a celebração diária de uma convivência verdadeiramente humana. Uma política fraterna e sororal. Um culto diário à Humanidade e o melhor culto ao Deus vivo. Queremos ser políticos e fazer política, sem possível neutralidade, sem hipócritas eqüidistâncias. Em seu famoso discurso na universidade de Lovaina, o mártir São Romero da América afirmou: «Ser a favor da vida ou da morte. Cada dia vejo com mais clareza que essa é a opção a seguir. Nisso não existe neutralidade possível. Ou servimos à vida ou somos cúmplices da morte de muitos seres humanos. Aqui se revela qual é a nossa fé: Ou cremos no Deus da Vida ou usamos o nome de Deus servindo aos carrascos da morte».”

Que todos nós, homens e mulheres, saibamos arrancar alegria e direitos dos dias.

Êta!Eia! Obrigado Pedro.

Miguel Salustiano, militante popular brasileiro.

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 A descolonização da América Latina e os direitos indígenas - Boaventura de Sousa Santos

15/05/2008  

Se revisarmos a história, recordaremos que, no período colonial, os colonizadores diziam que os índios não tinham alma. Foi necessário passarem 500 anos, um processo histórico muito largo, para que um índio fosse eleito presidente democraticamente.

O Equador, no momento atual, se caracteriza pelo fato de que as forças progressistas assumiram a bandeira empunhada pelo movimento indígena na década de 90 para a elaboração de uma nova Constituição, que reconheça a diversidade de uma maneira profunda através da plurinacionalidade. Os avanços nos últimos 20 anos permitiram passar da invisibilidade à visibilidade, da resistência à proposta e agora da interculturalidade à plurinacionalidade. É importante levar isso em conta para se analisar o atual processo constituinte.

A Constituição é simplesmente um papel que foi fonte de frustração durante muito tempo. Vários direitos foram incluídos, porém, os povos continuam sendo excluídos, empobrecidos, invisibilizados e oprimidos. Estamos diante de um novo tipo de constitucionalismo, que implica um diferente projeto político de país, outra forma de cultura, de convivência, de territorialidade, de institucionalidade do Estado.

Trata-se de uma nova época, interessante, mas muito difícil, já que existem muitos inimigos internos e externos que estão muito bem organizados. Lamentavelmente, as forças progressistas não se organizam tão bem como seus opositores. O atual modelo de Estado é homogeneizador porque implica uma só nação, cultura, direito, exército e religião. Essa idéia de homogeneidade predomina nas cabeças das elites, da cultura e até nas forças progressistas, que são ou podem ser aliadas nesse processo. Daí a importância em defender outro tipo de unidade na diversidade, que não seja simplesmente aceita, senão celebrada.

A unidade não tem porque ser homogênea e tampouco a diversidade tem que significar desintegração. Esses são os desafios que deve enfrentar a nova Constituição, para que efetivamente o atual processo político implique uma importante ruptura com o colonialismo que não terminou com as independências. As diversas iniciativas políticas que estão emergindo no continente só podem ser entendidas reconhecendo a existência de um profundo racismo na sociedade. Por exemplo, não podemos entender os conflitos na Bolívia sem antes recordar que, para suas elites, um índio é só um índio, e não concebem que tenha chegado a ser presidente, pois, segundo elas, não é competente. Se revisarmos a história, recordaremos que na colônia acreditavam que os índios não tinham alma, e foi um papa, em 1537, quem teve de reconhecer que tinham. Foi necessário passarem 500 anos, um processo histórico muito largo, para que um índio fosse eleito presidente democraticamente.

Na Venezuela também existe racismo, basta observar muitas das críticas lançadas contra o presidente Hugo Chávez, que o chamam de macaco e de não pertencer às elites brancas da sociedade dominante. Por isso a importância do reconhecimento da continuidade do colonialismo e de que, no processo constitucional, a plurinacionalidade é um ato de pós-colonialismo que rompe com essa herança colonial. A independência foi dada, concebida, conquistada pelos descendentes dos colonizadores, não pelos povos originários, quer dizer, não foi realmente descolonizadora. Na África, aconteceu o contrário, as independências se deram por territórios, pelos povos originários, com exceção da África do Sul, que conquistou sua independência em meados dos anos 90.

Esse novo tipo de constitucionalismo é importante, porém não é exclusivo da América Latina. No mundo existem vários países, como Canadá, Suíça, Bélgica e Espanha, que se reconhecem como plurinacionais. Não se entende, portanto, por que o drama, o enfrentamento e as dúvidas. Em uma reunião do SENPLADES (Secretaria Nacional do Planejamento e Desenvolvimento), à qual fui convidado, ficaram preocupados que a plurinacionalidade desintegrasse e destruísse o país, como também ficou um jornal de grande circulação no Equador, e lhes expliquei porque não devem ter medo. Primeiro, a plurinacionalidade tem como objetivo descolonizar o país, devido a essa herança colonial. Segundo, exige outra concepção do território e do controle dos recursos naturais. É ali que surgem os temores com respeito à propriedade da terra, o controle dos benefícios e lucros que produzem os recursos naturais.

Esse processo político significa uma nova visão de país, uma refundação do Estado equatoriano. Bolívia e Equador estão inventando outro tipo de Estado, um modelo que merece novas instituições e novos territórios com um marco político diferente, que permita passar do discurso à prática e cujas mudanças se reflitam de maneira visível.

A plurinacionalidade é um ato fundacional ou de refundação do Estado e todos os outros atos fundacionais são de transição. Passar das velhas estruturas à construção de novos estados é um processo de transição que não é unicamente político, senão cultural e que pode provocar enfrentamentos, como está acontecendo no Equador e na Bolívia. São choques de memória entre aqueles que não podem esquecer e os que não querem lembrar. Esta confrontação, que não é política, mas também cultural, exige que se construa outro tipo de memória.

O novo modelo de Estado implica uma nova institucionalidade, outra territorialidade, mas também outro modelo de desenvolvimento. Daí a importância das concepções indígenas, que estão ganhando terreno porque vão além das reivindicações puramente étnicas. Hoje em dia, o ponto de vista dos povos indígenas é importante no continente e não somente para eles, como também para todo o país, pois o atual modelo de desenvolvimento está destruindo os recursos naturais, o meio ambiente, contaminando a água, particularmente no Equador, como é o caso da Texaco, que durante 30 anos causou pobreza, destruição ambiental e contaminou as águas.

Este é um velho modelo e é possível que as palavras do 'desenvolvimento' não sejam as mais adequadas. Então, por que não utilizar a palavra 'reviver', que tem uma conotação muito mais profunda e que significa uma relação diferente com Pacha Mama? O conceito de natureza é muito pobre comparado com o de Pacha Mama, mais profundo e rico, pois implica harmonia e cosmovisão. Os indígenas colombianos costumam dizer "o petróleo é sangue da terra, é nosso sangue, nossa vitalidade, se nos tiram o sangue, nos matam". Esta concepção, que para os povos indígenas é muito natural, começa a ter outra aceitação. Não está em jogo só uma crise do capitalismo, mas também a sobrevivência da humanidade, caso se mantenha o atual modelo de desenvolvimento

Este ato refundacional tem uma enorme potencialidade para o estabelecimento de relações mais amplas e o movimento indígena tem de estar preparado para a construção de novas alianças. Trata-se também de outro modelo de democracia, porque a atual é muito excludente e marginalizou as grandes maiorias da mesa de negociações e decisões. Portanto, é necessário democratizar a democracia com novas formas de participação, mais inclusivas, podendo ser de origem ocidental, como a democracia participativa, ou de origem comunitária, como as formas indígenas. A Constituição boliviana, por exemplo, distingue entre democracia representativa e democracia partidária e comunitária.

A democratização da democracia vem acompanhada de outro processo interessante que é o da 'cidadanização' da cidadania, ou seja, a ampliação da cidadania a formas de cidadania intercultural junto de diferentes formas de pertencimento. Quando me perguntam se a plurinacionalidade pode colocar em risco a unidade do país, respondo rotundamente que não, pois essa é minha larga experiência com os movimentos indígenas deste continente, que, basicamente, mostram duas coisas: os povos indígenas são originariamente transnacionais, como é o caso dos aymaras, quéchuas, mapuches, que foram divididos em vários países e agora são chilenos, argentinos, peruanos, equatorianos ou bolivianos.

Em segundo lugar, eles reconhecem simultaneamente sua identidade nacional indígena e também a cidadania de seu país. Além do mais, mantiveram lealdade a seus países em guerras fronteiriças, participando com muita valentia de exércitos nacionais. Um exemplo desse duplo pertencimento podemos observar no Canadá, onde não é o mesmo ser canadense para um branco e para um indígena. Mesmo assim, todos, de maneira muito distinta, são canadenses.

Existem várias maneiras de pertencimento e, portanto, formas de convivência. A unidade na diversidade é uma nova solidariedade social, que pode ter um impacto muito forte nos territórios e recursos naturais. Podem produzir-se enfrentamentos, porém nas rupturas também existe continuidade. Por isso é importante que esses conflitos sejam controlados dentro de um marco pacífico e democrático.

Passar da interculturalidade à plurinacionalidade é um salto muito grande, mas também nisso se dá uma continuidade. A atual Constituição Política do Equador estabelece as circunscrições indígenas, porém estas, lamentavelmente, não foram regulamentadas.

Quando insistem no risco de que a plurinacionalidade pode enfraquecer a unidade nacional, pergunto-me: aonde estão as provas, os resultados desses fenômenos? Pelo contrário, o agronegócio e grandes latifundiários de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, que defendem o separatismo, é que constituem um grave perigo para a unidade do Estado. Portanto, a desintegração não vem dos povos indígenas.

O objetivo da plurinacionalidade não é somente a idéia do consenso, mas também do reconhecimento das diferenças, de outra forma de cooperação nacional com unidade na diversidade. É um ato de justiça histórica que não pode ser resolvido como um problema de geometria da democracia representativa. Qual a quantidade de indígenas neste país, 30, 20, 7 mil pessoas? Quanto menor a quantidade, mais demonstrado fica o nível de extermínio e, portanto, que a plurinacionalidade tem de ser mais profunda. Um desafio para a institucionalidade é compatibilizar a igualdade com a diferença. Difícil, mas não impossível.

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

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Mais uma força no nordeste, MSU agora tem representação em Sergipe. O estudante sergipano João Cláudio, Técnico em Patologia Clínica, abraça a causa e veste a camisa do Movimento dos Sem Universidade. "Chega de ver os formados no ensino médio perdendo as suas vagas nas universidades, temos que juntar as nossas mãos e fazer com que as propostas da Conferência Nacional da Educação Básica sejam colocadas em pratica. "Mais recursos para a educação, mais vagas nas universidades, melhor qualidade nos ensinos básico... só assim vamos ter uma nação igualitária e rica", diz o estudante. Entre em contato conosco e faça como o João Cláudio. Construa o MSU no seu Estado !

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Jaqueline Alves foi para a universidade. Está fazendo o curso de medicina veterinária, graças ao sistema público de bolsas, o ProUni, uma conquista da luta do MSU. Aqui, Jaqueline compartilha com o mundo a sua caminhada, para animar a caminhada dos excluídos na luta pelo direito à universidade no Brasil.

 

Ela batalhou muito atrás de seu propósito, mesmo quando havia pessoas que não acreditavam nela... veja seu depoimento:

 

“Eu sou a Jacqueline, estou fazendo Medicina Veterinária pelo PROUNI e estou muito feliz! O MSU em Guarulhos me ajudou muito!!! Abriu meus olhos para a injustiça da educação privada, me incentivou mais do que tudo a correr atrás do meu sonho, e me apoiou com professores ótimos e super-interessados em ajudar!

A verdade é que não adianta ficar parado. Tem que estudar muito, em casa, no ônibus, no banheiro...(brincadeira!) Sem planejamento individual a coisa não vai pra frente... o MSU me mostrou isso!

E quem participou das atividades do Cursinho Popular do MSU no ano passado sabe que TUDO o que caiu no ENEM a gente já tinha visto no curso... e isso foi incrível! Ajudou-me muito mesmo! Abraços e não desistam....estou torcendo por todos e todas!!!! Obrigada MSU!!!!!!"

 

Programação de Estudos da Jaqueline:

"Como tinha escola de manhã  e  curso de informática à tarde, estudava das 14:00 horas (a hora que eu chegava em casa) até às 18:00 horas. Ia para o curso e quando chegava estudava das 20:00 às 21:30 horas. Nada de novela... (até hoje...) porque além de tudo tinha os trabalhos escolares. Separava assim: no caminho, nos intervalos da aula e domingo à tarde, eu lia as obras (isso pode não parecer importante mas acrescentou muito, principalmente Carlos Drummond de Andrade...). De resto, era uma matéria por dia (física e química eram os principais, mas biologia e história fazia por diversão, por isso estudava mais...), só uma vez por semana que eu não estudava... afinal tem que namorar um pouquinho. Fazia exercícios e para ficar em dia e lia sobre atualidades. Sábado a tarde, fazia os exercícios da apostila solidária... é isso!”

 

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Estande do MSU, na Conferência Nacional de Educação, em 17 de abril de 2008

RODA DE DIÁLOGO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS NO CONEB

Veja os temas discutidos:

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Democratização da Universidade.

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Ampliação das vagas vias novas universidades.

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Demanda de cursinhos populares no Brasil.

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Crescimento das matriculas no ensino médio e ampliação da pressão popular .

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Relação professor/aluno e ociosidade.

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Recursos ampliados são muitos. Temos que mexer nisso. É preciso que nosso povo da periferia bote o pé na universidade pública e passe a democratizar por dentro.

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Ampliação de vagas públicas: no mínimo 2 milhões.

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Criação de universidades publicas.

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Os movimentos unidos vão para a briga.

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Defesa de ampliação da estrutura.

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Precisa de reaproveitar o que existe, exemplo usar o hospital como uma escola ao lado da universidade.

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Brasil real precisa estar na universidade pública e juntar o movimento de dentro pra fora e de fora pra dentro. É preciso debater muito o texto: Universidade nova:textos críticos e esperançosos.

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Essa qualidade sem quantidade não interessa aos movimentos populares.

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Transformação da escola para produção de pesquisa.

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Visão realista do que é a universidade: ela se constitui em atender ao interesse da nação. Tem que colocar esse povo gerador do conhecimento e dar uma nova qualidade a universidade para construir o projeto de futuro sem estar limitado a apenas um perfil social.

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Precisamos que o ensino tenha reciprocidade e  que o educando ensine o que a sociedade acumulou,no sentido da pesquisa e não se pode ficar só para as grandes empresas e sim para a população e o eixo tem que mudar.

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Movimento popular tem desafios, evidenciar a desagregação gerada no Brasil por modelos privatistas na educação. São necessárias ações afirmativas.

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No Rio tem experiência de jovens talentos e uma política pública que tem  bolsistas na escola pública para iniciar na pratica da ciência, podendo ate se estender para um trabalho mais amplo, precisamos entrar na universidade, nós da escola pública e é preciso a diversidade entrar para transformar e romper a reprodução do  sistema de poder por dentro, afirmação e democratização são partes do mesmo processo.

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Questão de reparação do governo.  A a entrada da população negra na universidade é historicamente negada. Parte da ordem social nega a vez da diversidade: é privatista, sexista, machista, racista. Onde nos situamos nessa situação de opressão? Daí vem os motivos da evasão escolar. É preciso que a universidade seja a cara do Brasil. O Brasil é plural. A universidade tem que ter a cara da periferia, não pode continuar rejeitando o conhecimento que é produzido na comunidade,onde tem grandes saberes. Lembramos que reserva de vagas, cotas não são para sempre e o tempo para terminar é o tempo para parar a reprodução do abismo no direito a universidade só para uns e não para outros. A grande maioria no Brasil não pode ficar fora da universidade pública e do debate do conhecimento e do destino do nosso querido Brasil.

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E importante para pensar num processo político de democratização, pois muita expressão cultural e apropriada pelas classes dominantes,tem que ter um projeto de educação popular,tem que ter universidades para que o Brasil real freqüente ela como sujeito e não na mera condição de objeto de estudo apenas.

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Pé de burro.

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Os movimentos precisam procurar estratégias comuns. Essa forma de dialogo mostra uma ciranda de dialogo, circular e que a roda tenha continuidade para os próximos militantes, que gere ensinamentos: não serve de nada macacos de auditórios e não serve  para esse pais. O que nos interessa e um mundo de felicidade. Que a inteligência das nossas ações se direcione para o palco do congresso nacional e que juntos, como maioria social no Brasil, sem cair na divisão que o veneno de certa mídia quer que engulamos. A universidade pública é direito da escola pública e sua diversidade. Não nos dividiremos jamais!

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O bonde dos bichos no Brasil

 Pedro José Vieira Ramos

14/02/2008 

             Alguns felizardos entraram em carreiras cobiçadas em universidades públicas de renome neste ano. Na primeira década do novo milênio, de 75% a 95% das vagas em cursos superiores públicos como medicina, direito, jornalismo, arquitetura, engenharia é  reservado para um mesmo perfil humano no Brasil. Os tipos sociais são: ricos, brancos, vindos da escola privada. As exceções confirmam a regra.

            O champanhe estoura em alguns endereços sociais: segundo pesquisa de 2004, feita à partir da lista dos matriculados na USP, menos de 10% do CEP (código de endereço postal) é de moradores de regiões de periferia, o que se mantêm atual.

            É também o momento do regozijo da indústria do vestibular, que movimenta milhões de reais no Brasil, euros, se quiser. Ela comemora seus lucros e mira seus fuzis de última geração em propagandas vorazes que cospem na cara dos mortais brasileiros, arrotando verdades: “vejam a nossa cota de aprovados, é só pagar que você também fará parte da nossa cota”. É uma tragédia e uma humilhação social sem par no mundo: do dinheiro público, uma minoria usufrui com farra!

            Como os tipos não são vistos em ambientes sociais populares, nesta época do ano, é comum encontrar seus rastros em semáfaros e faróis. Não são chamados de aspiras, como no filme brasileiro “Tropa de elite”, são os “bichos”. Não são chamados de recos, como no serviço militar obrigatório: são os “bichos”, simplesmente.

            E os bichos ocupam as ruas... para curtir com a cara da população. Pedem dinheiro para cachaças, cervejas, lança-perfumes e outros lances. Como num ritual militar, os privilegiados mais velhos domesticam os neófitos. Raspam o cabelo, pintam e bordam, pedem dinheiro e vão em bando encher a cara no final.

            No país dos doutores e dos banguelas, os bichos vão virar doutores. Vão mandar no Brasil. Com este ritual de ostentação social, eles simbolizam em carne e osso, a raiz, o tronco e os galhos históricos, da manutenção e reprodução no tempo, de uma sociedade com uma das piores distribuições de renda do planeta Terra, a injusta e violenta sociedade brasileira.

            Seu individualismo é tacanho. Seu compromisso social com a boa herança científica brasileira é duvidoso, bem diferente de Milton Santos, Celso Furtado, Josué de Castro, Florestan Fernandes, Newton da Costa, Carlos Chagas, Miguel Nicolelis, Paulo Freire e outros. Seu compromisso social com a transformação e a felicidade do Brasil é próxima de zero. Não vão à universidade dispostos a ajudar a acabar com a fome no Brasil, a ajudar a resolver a falta de saneamento básico, a cura para a doença de Chagas, a falta de moradia, de qualidade na educação pública brasileira, não estão interessados no drama da falta de coesão social brasileira.

            A crítica social dos bichos é dissimulada, para inglês ver. É uma caricatura útil que pode até aparecer numa redação, para atender ao apetite viciado do examinador no podre sistema de vestibular brasileiro. No mais, não vai além dos burburinhos das rodinhas dos botequins acadêmicos e suas massas acovardadas de privilégios.

            A maioria dos bichos está preocupada com o próprio umbigo ou rabo. Querem é mais enricar. A universidade é status, poder de compra e de mando. Os bichos são os donos das bocas disputadas das universidades públicas do país.

            A moral militarista e conservadora da balada dos bichos, do bonde dos bichos - melhor, já que eles são apenas a ponta visível da indústria dos vestibulares no Brasil, expõe a sofisticada violência social das elites brasileiras. Do ritual dos bichos já nasceu a morte de um jovem de origem chinesa na medicina da principal universidade pública do Estado mais rico do Brasil. Ele iria estudar no primeiro ano de medicina. Foi afogado numa piscina. O diferente é segregado.

            Agora, em 2008, no dia 12 de fevereiro, por volta das 22:30h, em Ribeirão Preto, área rica da indústria da cana-de-açúcar, outro rico que entrou em universidade, um bicho embalado, jogou seu carrão Vectra em cima de um frentista num posto de gasolina. Assim ele comemorava sua entrada na universidade, no curso de direito.

            O mais grave vírus que se multiplica com a balada dos bichos, com o bonde dos bichos é, no entanto, um virús subjetivo: o ódio social não dito dos ricos para com os pobres no Brasil, o racismo, o desprezo pela escola pública, a intolerância. É a arrogância e a prepotência social impregnada em quem entra no forno para ser a elite que manda.

            Virá um dia a comemoração do Brasil real com ele mesmo, uma comemoração socialmente justa.

            Os sem-universidade que furaram a estatística em 2008 estão convidados para transformar a exceção em regra, neste grande levante por direitos sociais no Brasil, no qual a ação e os resultados do MSU são exemplos dignos.

Pedro José Vieira Ramos - Especialista em Educação Superior no Brasil.

 

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Apesar da Intersecção, o Brasil clama por vagas públicas no ensino superior.

Pedro José Vieira Ramos

12/02/2008 

 

            Começa o 2008 escolar. De novo muita gente fora da universidade. No Brasil, uma grande novidade: a educação especulativa. Como no joguinho chamado war, lançam-se os dados e conquistam-se territórios. Os olhos – aqueles que se diz que a “terra há de comer” – se dão conta da situação: cada ponto do mapa tá dominado, principalmente nas grandes manchas urbanas nacionais. Uma olhadela na lista de universidades particulares versus as vagas em universidades públicas na Grande São Paulo, que concentra mais de vinte milhões de pessoas não deixa dúvida: se o somatório das vagas públicas fica na “rapa do tacho” com uma oferta de cerca de vinte mil vagas, as vagas privadas, agora da educação especulativa, com direito a ações no mercado aberto global das bolsas de valores, ficam na casa do milhão. Há outras manchas urbanas: Grande BH, Grande Recife, Grande Rio, Grande Porto Alegre, Grande Belém, DF etc e etc. Haja sem-universidade e computadores para modelar os lucros projetados e inventar produtos educacionais “inovadores”. Não se trata de cidadãos, mas de mera contabilidade financeira.

            Esta moda brasileira de montar universidades privadas e cursos, igual se tem farmácia e drogarias em cada esquina, começou na ditadura e não para. De fato, foram dois movimentos de guerra violentos que fixaram destinos: o primeiro veio da ditadura militar dos anos 1960 e o segundo veio da tempestade neoliberal dos anos 1990.

            Pagar pela universidade é normal, como ir ao banheiro fazer as necessidades.

            Universidade pública e gratuita não é normal, parece coisa exótica.

            A propaganda toda na cabeça das massas é da universidade privada.

            A universidade pública nacional é uma ilustre desconhecida das massas: feita para os nacionais com pedigrees, não se ocupa dos homens e mulheres comuns do povo.

            Mas, como naquela aulinha antiga de matemática, se há o conjunto A das universidades privadas e o conjunto B das universidades públicas, qual é o conjunto intersecção?

            É simples, o conjunto intersecção (A “inter” B) é formado por elementos discretos (inteiros) e contínuos (infinitos): o político eleito com o dinheiro da universidade privada (vereador, deputado estadual, deputado federal, senador); o professor que dá aula na universidade pública e privada; o dirigente da universidade pública que montou a universidade privada; o dono de cursinho dos anos 1960 que deu crias que viraram escolinha, universidade e marca de luxo da educação especulativa; o cargo público que é ocupado pelo representante do interesse privado; o órgão de comunicação que recebe dinheiramas para fixar nas massas a marca do grupo de educação privado; as fundações privadas em universidades públicas, que fazem novos ricos na academia brasileira e seus conseqüentes desvios do interesse público para o bem-estar e status pessoal; o pesquisador da universidade pública que opera para os negócios privados; o restaurante de luxo onde muitos destes elementos se encontram de noite escura para tratar de negócios educacionais, votações em câmaras municipais, assembléias legislativas, câmara e senado e agrados financeiros para imprensas sedentas de recursos financeiros, muitas vezes, entre bons vinhos e “otras cositas mas”.

            Por tudo isto, duas situações chamam a atenção neste 2008 que começa.

            A primeira é que a Câmara dos Deputados não vota o Projeto de Lei 73/1999 que garante a reserva de, no mínimo, 50% das vagas nas universidades públicas e no ensino tecnológico para oriundos da escola pública, por turno e por curso. Liderados pelo PFL (agora DEM, de dem...) e pelo PSDB – o veto de 2006 que parou a aprovação do projeto na câmara é assinado pelo então líder do PFL Rodrigo Maia, que no carnaval de 2008 no Rio de Janeiro, foi flagrado beijando a mão de bicheiros famosos e pelo então líder do PSDB Alberto Goldman, que agora é vice-governador de São Paulo e que foi pego recentemente, em Nova York, assistindo a uma peça de teatro com o cartão do Governo do Estado de São Paulo, numa situação de “passeio”. Por que será que não vota e aprova o PL 73/1999? Por que a Câmara dos Deputados não investe na escola pública? Será que aí tem o dedo do grupo da intersecção?

            A segunda situação que chama a atenção é a tentativa de melar a ampliação de vagas em universidades públicas, cerca de 100 mil novas vagas, já para 2008/2009, com grande quantidade de vagas noturnas e muitas delas sob regime de reserva de vagas para a escola pública, conquista da pugna social do MSU, por parte de pseudo-radicais e pelo grupo da intersecção.

            Se a luta do MSU conquistou 400 mil vagas no Sistema Público de Bolsas de Estudo, o Prouni, ainda é preciso acabar com a DRU (Desvinculação das Receitas da União) que tira verbas da educação.

            Não querem que se expanda o espaço das vagas públicas para não atrapalhar os negócios privados? Ora, 100 mil vagas públicas é muuuuuiiiiiito pouco ainda, para um Brasil que tem no seu Plano Nacional de Educação uma meta de oferta de 40% das vagas públicas no ensino superior para 2011 e ainda se encontra no patamar inferior a 10% neste ano.

Pedro José Vieira Ramos - Especialista em Educação Superior no Brasil.

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